Mulheres de diferentes lugares do Brasil se conectaram em uma rede de apoio e articulação que tem como principal elo a defesa ambiental e da justiça climática.
O Programa Defensoras por Defensoras, promovido pela rede ambiental Observatório do Clima, reúne histórias de vida ligadas pelos cuidados com as pessoas, o meio ambiente e a memória dos territórios.
São 36 mulheres que atuam na linha de frente do ativismo ambiental e climático e que juntas trocam vivência, compartilham desafios e passam por formações para o fortalecimento da luta em seus territórios.
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A Pernambucana Sara Marques (foto de destaque) vive na comunidade Caranguejo Tabaiares, em Recife (PE), desde que nasceu. O local às margens de um braço do Rio Capiberibe, há algumas décadas, era uma região de pescadores e marisqueiras.
Hoje, totalmente integrado à área urbana, sofre os impactos de um crescimento desordenado que tornou o rio improdutivo e pressiona a população local para dar espaço a novos empreendimentos imobiliários.
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“Eu tinha essa relação com a natureza, de saber que ia chover quando os caranguejos saíam do buraco, quando os aratus corriam [pequenos caranguejos], quando tinha peixe nos viveiros. Aqui a gente tinha uma cadeia de pescado. Então tinha camarão, siri, aratu, tinha cavalo marinho”, lembra Sara.
Antes mesmo de nascer, os avós da Sara já viviam ali e os pais se conheceram e construíram a casa onde ela nasceu também em Caranguejo Tabaiares. Mas com o tempo, tudo mudou.
“Então a gente diz que nós somos uma comunidade pesqueira descaracterizada. Você tem o rio canalizado, você tem uma ilha que não é mais ilha, agora é um istmo [faixa de terra que conecta duas áreas]. Você tem viveiros que antes eram bem cheios de espécies e que hoje produz, majoritariamente, só o camarão”, descreve Sara.
Restauração
No outro extremo do Brasil, em Santa Catarina, Mirian Prochnow também sentiu despertar a vontade de lutar por um meio ambiente saudável para as próximas gerações quando percebeu que o pedaço de Mata Atlântica onde viveu a infância começou a desaparecer.
“Quando a gente se deparou com centenas de caminhões carregados de Mata Atlântica passando na frente de casa foi o momento em que eu com um grupo de amigos pensamos o que a gente pode fazer e decidimos ‘vamos criar uma ONG e vamos salvar o planeta’”, relembra.
Do sonho de replantar as árvores e ver o rio vivo, nasceu, há 40 anos, a Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi) e começou o trabalho de produção de mudas de espécies nativas para restauração.
“Começou com 18 mudinhas no fundo do quintal. Hoje o viveiro que a gente tem, tem capacidade para mais de um milhão de mudas por ano e 200 espécies diferentes da Mata Atlântica”, diz Mirian Prochnow.
Coletivo
Foi exatamente essa vivência e experiência nas ações que fazem frente aos desafios sociais, ambientais e também de gênero que Valdineia Sauré, conhecida como Val Munduruku, decidiu também fazer parte das Defensoras por Defensoras.
Nascida em Jacareacanga, no Pará, já fora do contexto de aldeia, nunca deixou as lutas indígenas de seu território pra trás. Levou o ativismo para a vida universitária, onde começou a entender melhor as conexões entre a proteção da terra, os impactos das mudanças climáticas e como isso afeta de forma diferente cada pessoa.
“O que acontece no território não é algo isolado e a gente, enquanto pessoas que somos parte da solução, precisamos entender isso. Então, o casamento das causas, da universidade, do território, do movimento de mulheres e da juventude, resulta nesse boom no despertar do ativismo”, diz Val Munduruku.
Comunicação
Na união feminina, além de ganharem força para enfrentar os desafios em seus territórios, as mulheres também constroem a comunicação que ultrapassa os espaços coletivos conquistados por elas.
“A gente precisa fazer com que não só o nosso meio que está sendo afetado entenda, mas também com que outras pessoas tenham consciência para si, de que também vão ser prejudicadas. E que pobres, indígenas, e mulheres já estão comunicando isso há bastante tempo, mas estão pensando que ainda não tiveram tanta atenção”, reforça a paraense.
Cuidado
Em uma publicação lançada recentemente pelo programa Defensoras por Defensoras, o grupo faz uma reflexão sobre o trabalho desenvolvido por elas em relação à Política Nacional de Cuidados (Lei 15.069/2024).
No relatório Mulheres que Sustem o Clima, elas contam suas histórias e apontam lacunas existentes na lei, como a ausência de apoio para lideranças comunitárias e defensoras de território.
“Muitas vezes a gente não tem nem tempo para cuidar do próprio corpo, porque tem outras preocupações de como desenvolver um projeto, como que vai defender o território. Então, a gente sempre pergunta nesse movimento, quem defende as defensoras?” questiona Val.
A partir dessas reflexões elas também apontam caminhos como a revisão do conceito de cuidado indo além da prática cotidiana entre pessoas e alcançando a relação de cuidado com o território
“Então, oferecer suporte, apoio de todas as formas para que a gente consiga também estar na luta árdua e ao mesmo tempo fazer esse abraçamento coletivo de mulheres que cuidam, de mulheres trans, de pessoas que são mais marginalizadas nos territórios e que precisam ter esse olhar do cuidado espiritual, mental, para poder defender o território”, conclui Val Munduruku.