{"id":22780,"date":"2024-04-07T09:41:26","date_gmt":"2024-04-07T12:41:26","guid":{"rendered":"https:\/\/ejornais.com.br\/index.php\/2024\/04\/07\/pesquisadores-descobrem-neuronios-que-levam-a-alimentacao-compulsiva-mesmo-sem-fome\/"},"modified":"2024-04-07T09:41:26","modified_gmt":"2024-04-07T12:41:26","slug":"pesquisadores-descobrem-neuronios-que-levam-a-alimentacao-compulsiva-mesmo-sem-fome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ejornais.com.br\/index.php\/2024\/04\/07\/pesquisadores-descobrem-neuronios-que-levam-a-alimentacao-compulsiva-mesmo-sem-fome\/","title":{"rendered":"Pesquisadores descobrem neur\u00f4nios que levam \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o compulsiva mesmo sem fome"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.saopaulo.sp.gov.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/esquema.jpg\" \/><\/p>\n<div id=\"\">&#13;<\/p>\n<figure id=\"attachment_5857298\" style=\"width: 100%;max-width: 773px\" class=\"wp-caption alignnone\"><figcaption class=\"wp-caption-text\">C\u00e9lulas VGAT da subst\u00e2ncia cinzenta periaquedutal em verde e em amarelo. As c\u00e9lulas vermelhas fazem contatos sin\u00e1pticos em neur\u00f4nios VGAT.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Pela primeira vez, pesquisadores identificaram um conjunto de c\u00e9lulas nervosas, situadas nas profundezas do c\u00e9rebro, diretamente relacionadas com a manifesta\u00e7\u00e3o do comportamento de busca compulsiva por comida. A descoberta,\u00a0divulgada\u00a0na revista\u00a0<em>Nature Communications<\/em>, foi feita por um grupo da Universidade da Calif\u00f3rnia em Los Angeles (UCLA), nos Estados Unidos, e da Universidade Federal do ABC (UFABC), em S\u00e3o Bernardo do Campo (SP).<\/p>\n<p>Trata-se de uma popula\u00e7\u00e3o de neur\u00f4nios escondida em uma regi\u00e3o chamada subst\u00e2ncia cinzenta periaquedutal, que fica na base do c\u00e9rebro, em dire\u00e7\u00e3o oposta ao c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal. Tamb\u00e9m conhecidas como c\u00e9lulas VGAT (do ingl\u00eas vesicular GABA transporter), elas usam o neurotransmissor GABA (\u00e1cido gama-aminobut\u00edrico), que desempenha um papel importante na regula\u00e7\u00e3o da atividade neuronal. Est\u00e3o presentes em v\u00e1rias \u00e1reas do c\u00e9rebro e da medula espinhal, contribuindo para a modula\u00e7\u00e3o do humor, do sono, da ansiedade e da resposta ao estresse, entre outras fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se conhecia, por\u00e9m, a rela\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas VGAT na regi\u00e3o cinzenta periaquedutal com a alimenta\u00e7\u00e3o\u201d, descreve o pesquisador Avishek Adhikari, do Departamento de Psicologia da Universidade da UCLA. No Laborat\u00f3rio de Neuroci\u00eancias da UCLA, sob a lideran\u00e7a de Adhikari, s\u00e3o feitos estudos para entender como o c\u00e9rebro coordena a constela\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as relacionadas aos comportamentos emocionais, com foco no medo e na ansiedade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_5857285\" style=\"width: 100%;max-width: 773px\" class=\"wp-caption alignnone\"><figcaption class=\"wp-caption-text\">(Imagem: Avishek Adhikari)<\/figcaption><\/figure>\n<p>A descoberta foi acidental. \u201cEst\u00e1vamos investigando os neur\u00f4nios da subst\u00e2ncia cinzenta periaquedutal com interesse em ansiedade e n\u00e3o em alimenta\u00e7\u00e3o\u201d, revela o autor principal do trabalho, o neurocientista brasileiro\u00a0Fernando Reis, da UCLA. A hip\u00f3tese inicial dos pesquisadores era de que a ativa\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas VGAT deveria inibir rea\u00e7\u00f5es de medo e p\u00e2nico. \u201cQuando as ativamos em camundongos, vimos que isso n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o acontecia como houve uma busca desenfreada por alimentos\u201d, conta Reis, que decidiu aprofundar o estudo com a realiza\u00e7\u00e3o de mais testes. A investiga\u00e7\u00e3o teve apoio da Fapesp por meio de tr\u00eas projetos (16\/17329-3,\u00a019\/17677-0\u00a0e\u00a019\/17892-8).<\/p>\n<p>A nova bateria de experimentos trouxe revela\u00e7\u00f5es surpreendentes. Mesmo em animais completamente saciados, sem fome alguma, a ativa\u00e7\u00e3o dessas c\u00e9lulas deflagrou uma busca fren\u00e9tica por alimentos e os fez comer mais do que seria normal. O contr\u00e1rio tamb\u00e9m aconteceu. Animais deixados propositalmente com muita fome comeram menos quando os neur\u00f4nios VGAT foram inibidos.<\/p>\n<p>Durante os testes, os cientistas observaram que os camundongos pareciam gostar da estimula\u00e7\u00e3o recebida. \u201cEles ficavam mais tempo do lado da caixa onde recebiam est\u00edmulos para ativar as c\u00e9lulas VGAT periaquedutais. Acreditamos que a busca descontrolada por comida produz sensa\u00e7\u00f5es positivas, agrad\u00e1veis e prazerosas, de recompensa\u201d, observa Reis.<\/p>\n<p>Os camundongos tamb\u00e9m se dispuseram a superar obst\u00e1culos para alcan\u00e7ar os alimentos. \u201cEles subiram uma pequena grade de arame que dava choques de baixa voltagem para alcan\u00e7ar peda\u00e7os de nozes. N\u00e3o \u00e9 algo desej\u00e1vel, mas o \u00edmpeto de chegar \u00e0 comida foi maior do que o desconforto\u201d, relata Adhikari.<\/p>\n<p><strong>Est\u00edmulos luminosos<\/strong><\/p>\n<p>O circuito neuronal estimulado pelos pesquisadores corresponde a cerca de 10% a 12% das c\u00e9lulas nervosas contidas na subst\u00e2ncia periaquedutal cinza. A tecnologia escolhida para ativ\u00e1-las seletivamente foi a optogen\u00e9tica. \u201cO problema que a optogen\u00e9tica tenta resolver \u00e9 como manipular a atividade de um subgrupo de c\u00e9lulas em uma \u00e1rea espec\u00edfica do c\u00e9rebro\u201d, explica Adhikari, que fez seu p\u00f3s-doutorado no laborat\u00f3rio da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, onde essa t\u00e9cnica foi desenvolvida.<\/p>\n<p>A optogen\u00e9tica torna os neur\u00f4nios sens\u00edveis \u00e0 luz para que assim possam ser estimulados ou inibidos. Para isso, os pesquisadores injetam nos neur\u00f4nios-alvo um v\u00edrus geneticamente modificado, que carrega uma prote\u00edna sens\u00edvel \u00e0 luz obtida de uma alga unicelular. \u201cA partir da infec\u00e7\u00e3o pelo v\u00edrus modificado, a popula\u00e7\u00e3o de neur\u00f4nios selecionada recebe essa prote\u00edna fotossens\u00edvel e tamb\u00e9m instru\u00e7\u00f5es para come\u00e7ar a fabric\u00e1-la\u201d, explica o pesquisador\u00a0Alexandre Kihara, da UFABC, um dos cinco brasileiros que fazem parte do time de pesquisadores que descobriu a rela\u00e7\u00e3o entre esse subgrupo de c\u00e9lulas VGAT e a comida.<\/p>\n<p>Os camundongos receberam tamb\u00e9m um implante de fibra \u00f3ptica para conduzir uma luz azul \u00e0s c\u00e9lulas devidamente infectadas. \u201cCaptado pelas prote\u00ednas fotossens\u00edveis, o est\u00edmulo luminoso se converte em atividade el\u00e9trica. Desse modo, conseguimos que as c\u00e9lulas fiquem mais ou menos ativas de acordo com o comprimento de onda da luz emitida\u201d, descreve\u00a0Juliane Ikebara, que foi bolsista de doutorado na UFABC e \u00e9 coautora do trabalho.<\/p>\n<p>Sob a luz azul, os camundongos mudaram brutalmente de comportamento. \u201cN\u00f3s vimos animais bem alimentados e saciados dispararem atr\u00e1s de um inseto para devor\u00e1-lo\u201d, conta Adikhari.<\/p>\n<p>O mapeamento das \u00e1reas atingidas pelo aumento da libera\u00e7\u00e3o do neurotransmissor GABA revelou impacto em regi\u00f5es profundas do c\u00e9rebro, como a chamada zona incerta. \u201cVimos um aumento da atividade neural nessa \u00e1rea quando o animal est\u00e1 se aproximando do alimento\u201d, explica o pesquisador.<\/p>\n<p>A pergunta mais importante \u00e9 se as c\u00e9lulas VGAT periaquedutais em humanos tamb\u00e9m induzem o consumo de alimentos. Experimentos anteriores indicam que a fun\u00e7\u00e3o da \u00e1rea periaquedutal \u00e9 similar em humanos e ratos. Em ambas as esp\u00e9cies, injetar corrente el\u00e9trica nessa \u00e1rea causa sintomas agudos de medo, p\u00e2nico e analgesia.<\/p>\n<p>\u201cNossos achados n\u00e3o podem ser diretamente testados em humanos no momento, mas, eventualmente, estudos futuros poder\u00e3o mostrar se a ativa\u00e7\u00e3o dessas c\u00e9lulas periaquedutais VGAT em macacos induz a busca por comida, o que sugeriria que algo similar acontece em humanos\u201d, pontua Adhikari.<\/p>\n<p>Novos estudos iniciados pelo grupo investigam a predile\u00e7\u00e3o dos animais cujos neur\u00f4nios foram estimulados por alimentos ricos em prote\u00ednas e a\u00e7\u00facares, entre outros aspectos. \u201cOs camundongos n\u00e3o quiseram legumes. Eles preferiram salsicha, a\u00e7\u00facar, queijo e chocolate\u201d, conta Adhikari.<\/p>\n<p>Para os pesquisadores, a descoberta de que a estimula\u00e7\u00e3o ou inibi\u00e7\u00e3o dessa \u00e1rea espec\u00edfica do c\u00e9rebro provoca comportamentos semelhantes aos que s\u00e3o vistos na anorexia ou compuls\u00e3o alimentar pode levar \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de novas abordagens para o controle dos transtornos alimentares.<\/p>\n<p>Siga o canal \u201cGoverno de S\u00e3o Paulo\u201d no WhatsApp:<br \/>https:\/\/bit.ly\/govspnozap<\/p>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#13; C\u00e9lulas VGAT da subst\u00e2ncia cinzenta periaquedutal em verde e em amarelo. 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