{"id":68970,"date":"2026-07-11T13:35:19","date_gmt":"2026-07-11T16:35:19","guid":{"rendered":"https:\/\/ejornais.com.br\/index.php\/2026\/07\/11\/quando-um-parente-entra-estamos-representados\/"},"modified":"2026-07-11T13:35:19","modified_gmt":"2026-07-11T16:35:19","slug":"quando-um-parente-entra-estamos-representados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ejornais.com.br\/index.php\/2026\/07\/11\/quando-um-parente-entra-estamos-representados\/","title":{"rendered":"Quando um parente entra, estamos representados"},"content":{"rendered":"<p> Por MRNews<br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p><strong>Francineia Bitencourt Fontes \u00e9 uma mulher de muitos primeiros. Mais conhecida como Francy Baniwa, ela foi a primeira mulher ind\u00edgena a publicar um livro de antropologia no Brasil. Ela tamb\u00e9m foi a primeira mulher Baniwa a se tornar mestre e, mais recentemente, ela \u00e9 a primeira mulher Baniwa a integrar o corpo docente da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/strong><\/p>\n<p>Mulher ind\u00edgena, antrop\u00f3loga, fot\u00f3grafa, escritora, dona de ro\u00e7a e pesquisadora do povo Baniwa, Francy Baniwa nasceu na comunidade de Assun\u00e7\u00e3o, no Baixo Rio I\u00e7ana, na Terra Ind\u00edgena Alto Rio Negro, no munic\u00edpio de S\u00e3o Gabeiel da Cachoeira (AM).\u00a0<\/p>\n<p>Em solo brasileiro, os Baniwas est\u00e3o localizados no Baixo e M\u00e9dio I\u00e7ana e nos rios Cubate, Cuiari e Aiari. Tamb\u00e9m est\u00e3o em comunidades do Alto Rio Negro, nas cidades de S\u00e3o Gabriel, Santa Isabel e Barcelos.\u00a0<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/mrnews.com.br\/index.php\/2026\/07\/11\/morre-peppino-di-capri-icone-da-musica-italiana-aos-86-anos\/\">Morre Peppino di Capri, \u00edcone da m\u00fasica italiana, aos 86 anos<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/mrnews.com.br\/index.php\/2026\/07\/11\/brasil-perde-por-3-a-0-para-tailandia-na-liga-das-nacoes-de-volei\/\">Brasil perde por 3 a 0 para Tail\u00e2ndia na Liga das Na\u00e7\u00f5es de V\u00f4lei<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Segundo o \u00faltimo censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), de 2022, os Baniwa somam atualmente 8.827 pessoas em territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p><strong>Engajada nas organiza\u00e7\u00f5es e no movimento ind\u00edgena do Rio Negro h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, ela pesquisa as \u00e1reas de etnologia ind\u00edgena, g\u00eanero, saberes femininos, objetos e acervos.<\/strong> Na maior universidade p\u00fablica do pa\u00eds, Francy Baniwa vai atuar no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE).<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>, Francy Baniwa falou que essa \u00e9 uma conquista para todo um coletivo ind\u00edgena e demonstra, principalmente para as mulheres ind\u00edgenas, que elas podem ocupar qualquer espa\u00e7o.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cEssa vit\u00f3ria e essa presen\u00e7a nossa, pela primeira vez, em uma universidade t\u00e3o importante, \u00e9 um espa\u00e7o que a gente vai conquistando aos poucos. Sabemos que somos donos dessa terra, mas por muito tempo fomos violentados\u201d, disse ela.\u00a0<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/mrnews.com.br\/index.php\/2026\/07\/11\/publicadas-regras-que-restringem-publicidade-de-bets-no-pais\/\">Publicadas regras que restringem publicidade de bets no pa\u00eds<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/mrnews.com.br\/index.php\/2026\/07\/11\/mega-sena-sorteia-premio-de-r-20-milhoes-neste-sabado\/\">Mega-Sena sorteia pr\u00eamio de R$ 20 milh\u00f5es neste s\u00e1bado<\/a><\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u201cE quando ocupamos esse espa\u00e7o, isso significa muito. N\u00e3o \u00e9 apenas uma mulher Baniwa. \u00c9 um povo que vai estar podendo ocupar esses espa\u00e7os. E essa conquista \u00e9 de todos n\u00f3s, de todos os povos. Ent\u00e3o, quando um parente entra nesse espa\u00e7o, ficamos muito felizes porque estamos sendo representados\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p><strong>Na entrevista, Francy reflete sobre seu pioneirismo e sobre sua condi\u00e7\u00e3o de mulher ind\u00edgena e ressalta a import\u00e2ncia das universidades do pa\u00eds estarem, finalmente, se abrindo aos saberes e conhecimentos ind\u00edgenas.<\/strong> \u201cEu tenho mediado esses mundos mostrando que a universidade tamb\u00e9m \u00e9 uma boa porta, que ela pode dar visibilidade para os seus conhecimentos de uma outra forma\u201d.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Quem \u00e9 Francy Baniwa? E como voc\u00ea chegou at\u00e9 aqui?<\/p>\n<p><strong>Francy Baniwa: <\/strong>Eu sou Hipamaalhe, que significa o som da cachoeira. Sou uma mulher, uma mulher ind\u00edgena, sou m\u00e3e, sou artes\u00e3, sou ativista, sou dona de ro\u00e7a. Eu venho de um territ\u00f3rio muito distante, que \u00e9 um territ\u00f3rio chamado Alto Rio Negro, no munic\u00edpio de S\u00e3o Gabriel da Cachoeira, no noroeste amaz\u00f4nico. E eu venho do Rio I\u00e7ana, de uma comunidade chamada Assun\u00e7\u00e3o, que em baniwa \u00e9 Wanaliana. E eu sou essa mulher ind\u00edgena que nasceu numa comunidade ind\u00edgena, que teve inf\u00e2ncia, adolesc\u00eancia e juventude numa comunidade ind\u00edgena e que estudou desde as s\u00e9ries iniciais at\u00e9 o ensino fundamental e o ensino m\u00e9dio em uma escola ind\u00edgena, com professores ind\u00edgenas. Acho super importante ter esse contexto de que eu vim de uma educa\u00e7\u00e3o escolar ind\u00edgena. Eu sou fruto de uma educa\u00e7\u00e3o escolar ind\u00edgena, de professores ind\u00edgenas. Nunca tive um professor, mestre ou doutor nesse conhecimento ocidental. Tive professores ind\u00edgenas que s\u00e3o donas de ro\u00e7a, pescadores, ca\u00e7adores e que tem essa vis\u00e3o do mundo muito diferente que \u00e9 de conhecimento ind\u00edgena, de uma ci\u00eancia ind\u00edgena. Ent\u00e3o, eu sou fruto desse outro mundo de saberes ind\u00edgenas. Eu venho dessa ancestralidade trazendo toda essa forma\u00e7\u00e3o \u00fanica que \u00e9 um conhecimento ind\u00edgena.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil: <\/strong>Voc\u00ea foi nomeada professora da maior universidade da Am\u00e9rica Latina. Voc\u00ea foi tamb\u00e9m a primeira mulher Baniwa a se tornar mestre, a primeira Baniwa professora da USP. Primeira mulher ind\u00edgena a publicar um livro de antropologia no Brasil. S\u00e3o muitos primeiros. Que significados isso traz para voc\u00ea e para seu povo?<\/p>\n<p><strong>Francy<\/strong>: Acho que tem um significado \u00fanico, n\u00e3o s\u00f3 para o meu povo Baniwa, mas para os povos ind\u00edgenas. Eu acho que a ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o vem dessa trajet\u00f3ria de muito silenciamento das vozes dessas mulheres. Por muito tempo, as pesquisas silenciaram esses conhecimentos, ent\u00e3o acho que eu sou a voz desse conjunto de mulheres que, por muito tempo, estavam a\u00ed fazendo ci\u00eancia, trazendo seus conhecimentos, mas atrav\u00e9s de outros, sabe? Ent\u00e3o, acho que eu ser a primeira tem esse s\u00edmbolo de muita resist\u00eancia. N\u00f3s, como mulheres ind\u00edgenas, estamos muito longe desses contextos de universidade. A gente veio das comunidades [para as universidades] muito maduras, j\u00e1 m\u00e3es. Eu vim para a universidade j\u00e1 com dois filhos. Acho que isso significa muito dessa nossa caminhada de bagagem, mas tamb\u00e9m desse protagonismo porque a gente acabou dizendo: \u2018n\u00f3s somos capazes\u2019. O que a gente ouvia muito \u00e9: \u2018se voc\u00ea j\u00e1 tem filho, voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o pode ir para a universidade\u2019. \u00c9 como se a gente n\u00e3o tivesse o direito de estar na universidade. Ent\u00e3o, acho que essa nossa presen\u00e7a de corpos, de vozes, de saberes, com filhos, traz muito dessa nossa determina\u00e7\u00e3o. Eu me vejo em muitas mulheres e eu tenho certeza que muitas mulheres se veem em mim tamb\u00e9m como uma mulher forte que superou muitos desafios e que passou por muita viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Estar aqui hoje significa muito para a gente poder mostrar para as meninas e para as comunidades que a gente pode sim ocupar esses espa\u00e7os. Acho que essa minha presen\u00e7a em ser a primeira mulher a terminar mestrado, depois doutorado e de ser a primeira consultora dos projetos da UNESCO (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura) no Museu Nacional dos Povos Ind\u00edgenas, mostra que o estudo te coloca nesses lugares. O incentivo da comunidade e o incentivo dos pais em me dizer \u2018vai, porque seus filhos v\u00e3o ficar aqui comigo e v\u00e3o estar bem\u2019, me colocou nesses espa\u00e7os. Se eu desistisse no primeiro desafio, eu n\u00e3o estaria aqui contando o qu\u00e3o foi dif\u00edcil, o qu\u00e3o foi desafiador estar longe de casa, o qu\u00e3o foi dif\u00edcil estar na cidade. Mas, ao mesmo tempo, quando voc\u00ea olha para o seu povo, voc\u00ea pensa: \u2018Por eles eu preciso encarar esses desafios\u2019.<\/p>\n<p>Eu tenho atravessado esses dois mundos ao mesmo tempo, ent\u00e3o acho que \u00e9 gratificante poder ser a porta-voz das mulheres. Falar com orgulho sobre as mulheres donas de ro\u00e7as \u00e9 como se a minha m\u00e3e pudesse estar falando sobre os conhecimentos dela. Eu me vejo tamb\u00e9m em muitas das minhas tias. Eu trago muitas vozes dessa viv\u00eancia coletiva que a gente tem. E isso me coloca nesse protagonismo de poder falar sobre nossos conhecimentos com muita determina\u00e7\u00e3o porque eu vivo, eu fa\u00e7o parte disso, eu sou elas como corpo tamb\u00e9m desses saberes.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil: <\/strong>E como trazer essas viv\u00eancias e saberes dessas mulheres que est\u00e3o contigo, como trazer tudo isso para dentro da universidade? Como relacionar todo esse conhecimento com as teorias acad\u00eamicas?<\/p>\n<p><strong>Francy: <\/strong>Eu costuro muito isso. Eu sempre falo que eu sou tradutora desses mundos. Uma coisa s\u00e3o as minhas tias, a minha comunidade, as mulheres trabalharem sempre em coletivo. Mas o nosso maior desafio \u00e9 como traduzir esses conhecimentos para a universidade e para o portugu\u00eas porque na l\u00edngua voc\u00ea vive e voc\u00ea sente. Eu tenho sido a tradutora de mundos, eu traduzo bem o que \u00e9 ser dona de ro\u00e7a porque eu vivo isso. Eu sei como traduzir porque eu sei o qu\u00e3o \u00e9 desafiante e o quanto \u00e9 lindo ser dona de ro\u00e7a. Eu me orgulho muito de viver em um mundo muito diferente e de poder traduzir esses mundos.<\/p>\n<p>Isso me traz nesse lugar de compartilhar saberes, dessa viv\u00eancia \u00fanica que a gente tem na comunidade de como as mulheres s\u00e3o as guardi\u00e3s e pilares de conhecimento, de como as mulheres s\u00e3o \u00fanicas dentro da comunidade por esse fazer que elas v\u00e3o costurando: a partir da ro\u00e7a, da viv\u00eancia do dia a dia, do resguardo do parto, da inf\u00e2ncia, do cuidado com os maridos e com os filhos e com a comunidade, na prepara\u00e7\u00e3o de festa, nas pinturas, nos grafismos, nas tecelagens. Eu trago essa ci\u00eancia ind\u00edgena para uma outra tradu\u00e7\u00e3o e tento casar essas duas ci\u00eancias. E eu acho que poder ser uma das mulheres tradutoras de mundo j\u00e1 me transforma em uma mulher cientista. E al\u00e9m de ser dona de ro\u00e7a, hoje eu me considero um bra\u00e7o do meu pai porque eu sou tradutora de narrativas de outros mundos, cosmol\u00f3gicas, de benzimentos e de cantos. Eu n\u00e3o sabia que seria resultado de uma parceria t\u00e3o linda com meu pai. Trazer isso tamb\u00e9m para antropologia mostra como os mundos mudaram e que houve mudan\u00e7as tamb\u00e9m nos conhecimentos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>N\u00e3o era um pai e um filho. Era um pai e uma filha. Isso me colocou tamb\u00e9m nesse espa\u00e7o de ser tradutora de mundos, mas tamb\u00e9m de trazer essas informa\u00e7\u00f5es e inspira\u00e7\u00f5es para a juventude. Hoje tenho mostrado para a juventude que o nosso territ\u00f3rio \u00e9 o maior pilar do mundo. A gente precisa conhecer o nosso mundo para a gente poder sair por esse mundo t\u00e3o grande, que \u00e9 a universidade, e voc\u00ea poder falar do seu mundo com muito orgulho. \u00c9 dif\u00edcil, mas a gente traduz nossos conhecimentos e isso me fortalece tamb\u00e9m como mulher.<\/p>\n<p>Eu tenho mediado esses mundos mostrando que a universidade tamb\u00e9m \u00e9 uma porta boa, que ela pode dar visibilidade para os seus conhecimentos de uma outra forma.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil: <\/strong>Voc\u00ea sente que a universidade hoje j\u00e1 est\u00e1 mais aberta para esses saberes e esses conhecimentos ind\u00edgenas?<\/p>\n<p><strong>Francy: <\/strong>Acho que aos pouquinhos sim. Eu acho que essa nossa entrada por meio da luta dos movimentos ind\u00edgenas, dos coletivos ind\u00edgenas e de parceiros professores que pesquisam nas comunidades ind\u00edgenas, tem de fato aberto um leque diferente, em ter esse olhar espec\u00edfico para os conhecimentos ind\u00edgenas. Acho que nossa entrada [nas universidades] fortalece muito as pesquisas que j\u00e1 foram realizadas. E com o nosso olhar, com a presen\u00e7a de ind\u00edgenas e quilombolas, ela fica muito mais rica.<\/p>\n<p>Quando a gente fala de povos ind\u00edgenas, tem esse contexto da diversidade. Tem pessoas que v\u00eam da comunidade que est\u00e1 l\u00e1 na selva, que \u00e9 o meu caso. Mas tem parentes que j\u00e1 est\u00e3o em centros urbanos, que j\u00e1 dominam o portugu\u00eas. A gente vem em um contexto muito espec\u00edfico de presen\u00e7a de ind\u00edgenas nas universidades. Acho que o impacto maior sempre \u00e9 para as pessoas que nunca tiveram acesso a esse mundo. E esse impacto \u00e9 duro, eu diria assim, principalmente na quest\u00e3o da coletividade porque a gente vem de um territ\u00f3rio em que a coletividade \u00e9 muito presente: a ro\u00e7a \u00e9 coletiva, os trabalhos para limpar uma comunidade s\u00e3o coletivos, a gente compartilha a comida em coletivo. E a gente vem para uma cidade onde n\u00e3o existe isso.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o impacto de sobreviver de forma sozinha \u00e9 muito pesado para a gente que veio de uma comunidade com uma liberdade para viver.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image atom-align-center\">\n<h6 class=\"meta rtecenter\">Francineia Bittencourt, do povo Baniwa, se tornou a primeira mulher Baniwa a fazer parte do corpo docente da USP. Foto: <strong>Paulo Pinto\/Agencia Brasil<\/strong><!--END copyright=468644--><\/h6>\n<\/div>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil: <\/strong>Por muito tempo, essas hist\u00f3rias ind\u00edgenas foram contadas, por exemplo, por antrop\u00f3logos n\u00e3o-ind\u00edgenas. E agora voc\u00ea chega \u00e0 universidade e est\u00e1 contando a sua hist\u00f3ria. O ind\u00edgena sempre foi um objeto de estudo e agora esse ind\u00edgena estar\u00e1 contando sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Como \u00e9 ser uma antrop\u00f3loga ind\u00edgena nessa perspectiva? E que hist\u00f3rias voc\u00ea pretende contar a partir de agora?<\/p>\n<p><strong>Francy: <\/strong>\u00c9 uma conquista em que a gente vem em passo de formiguinha. Mas acho que a gente acaba somando essa for\u00e7a da nossa presen\u00e7a nas universidades. A gente continua sendo objeto de estudo, mas acho que com a diferen\u00e7a de que a gente tamb\u00e9m est\u00e1 ocupando esses espa\u00e7os. A gente ser objeto de estudo nos coloca nesse lugar de \u2018vamos pesquisar o que \u00e9 cer\u00e2mica ou cestaria\u2019. A universidade tem um interesse muito espec\u00edfico. Com a nossa entrada [na universidade], tudo para a gente \u00e9 importante. Mas como costurar essas informa\u00e7\u00f5es para que a universidade, os professores e os pesquisadores possam entender o que estamos querendo falar? N\u00f3s j\u00e1 entramos [na universidade] sabendo qual vai ser a disserta\u00e7\u00e3o e qual vai ser a tese. E o diferencial \u00e9 que a gente chega fazendo pesquisa em casa. A gente chega sempre iniciando com as narrativas.<\/p>\n<p>O tempo \u00e9 o pilar para a gente escrever uma tese ou uma disserta\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 sempre ele que come\u00e7a as narrativas. Como construir uma narrativa para que eu consiga chegar no meu objetivo? O que meu pai quer que eu escreva? Ser\u00e1 que essa tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 exatamente isso? O que as mulheres querem que eu fale sobre elas? N\u00e3o de forma rasa, mas de uma forma que vai com o cora\u00e7\u00e3o, porque pesquisa \u00e9 afeto, \u00e9 coletividade, \u00e9 parceria, \u00e9 escuta, \u00e9 o tempo, \u00e9 a floresta. S\u00e3o lugares sagrados e \u00e9 importante trazer todas essas pessoas vis\u00edveis e invis\u00edveis para uma tese.<\/p>\n<p>Quando resolvi fazer a minha disserta\u00e7\u00e3o, eu queria mergulhar no mundo das narrativas. Porque eu sempre vivi as narrativas, mas nunca me questionei o porqu\u00ea dessas narrativas. Eu sempre digo que amo ser antrop\u00f3loga porque a antropologia me deu uma ferramenta de querer me aprofundar mais, um aprofundamento que eu precisava como mulher ind\u00edgena.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de tese, disserta\u00e7\u00f5es e TCCs hoje \u00e9 fundamental\u00a0para fortalecer os nossos conhecimentos. A gente pegou todo o conhecimento oral que a gente tem, dentro do nosso mundo e a gente est\u00e1 transformando essa oralidade em palavras, que \u00e9 produ\u00e7\u00e3o da escrita. E isso fortalece muito nessa quest\u00e3o da valoriza\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas, dos cantos, dos rituais, da import\u00e2ncia do territ\u00f3rio, de como o movimento ind\u00edgena \u00e9 importante, de como as grandes malocas s\u00e3o importantes e de como esses acervos s\u00e3o bibliotecas vivas para a gente poder visitar.<\/p>\n<p>Hoje a gente est\u00e1 se apropriando dessa ferramenta e desses espa\u00e7os para fortalecer os nossos territ\u00f3rios. Uma coisa que \u00e9 bonita \u00e9 poder ocupar esses espa\u00e7os, mas sem deixar de olhar para os territ\u00f3rios. Acho que ocupar esses espa\u00e7os \u00e9 como um pilar: ele vai te proporcionar trabalhar com as comunidades n\u00e3o s\u00f3 Baniwa, mas com os v\u00e1rios territ\u00f3rios. Eu me coloco muito como uma pesquisadora que tem um olhar diferente, de sempre pensar nessa parceria, nessa coletividade, nessa produ\u00e7\u00e3o de conhecimento coletivo e de como isso nos fortalece nessa nossa caminhada.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil: <\/strong>Qual vai ser a sua fun\u00e7\u00e3o no MAE? Voc\u00ea pretende trazer alguma mudan\u00e7a aqui para o museu?<\/p>\n<p><strong>Francy: <\/strong>Eu ainda estou chegando. E quando voc\u00ea chega em uma casa nova, voc\u00ea precisa observar, sentir e ver em qual setor ou qual atividade voc\u00ea vai contribuir melhor. Eu venho de uma \u00e1rea de etnologia, n\u00e3o como ind\u00edgena, mas com essa bagagem que eu j\u00e1 venho construindo de trabalhar em acervos e com a parte da qualifica\u00e7\u00e3o, requalifica\u00e7\u00e3o e a import\u00e2ncia das l\u00ednguas. Hoje temos um centro de l\u00ednguas ind\u00edgenas aqui no MAE. Ent\u00e3o acredito que s\u00e3o portas em que eu j\u00e1 vou poder contribuir no acervo. Acho que vou atuar muito nessa \u00e1rea de lingu\u00edstica e do acervo e no contato com as comunidades. Mas ao longo do tempo vou poder futuramente dar um curso ind\u00edgena, voltado para os conhecimentos ind\u00edgenas, mas sempre em conversa com a dire\u00e7\u00e3o e com os professores.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil: <\/strong>S\u00e3o Paulo \u00e9 uma cidade fundada sobre um patrim\u00f4nio ind\u00edgena e muito desse patrim\u00f4nio acaba vindo aqui para o MAE. Mas mesmo aqui no MAE esse patrim\u00f4nio continua escondido, em uma reserva t\u00e9cnica. Como voc\u00ea v\u00ea isso?<\/p>\n<p><strong>Francy: <\/strong>A gente tem esse grande desafio. Eu tenho trabalhado com a quest\u00e3o de acervos e a gente sempre depara com esses arquivos, tanto de objetos quanto de fotografias. Esse \u00e9 um tema em que as institui\u00e7\u00f5es ainda est\u00e3o pensando de que forma lidar, mas acho que a gente j\u00e1 vem trabalhando nisso. Acho que a nossa presen\u00e7a e nossas conversas com essas institui\u00e7\u00f5es t\u00eam aberto muitas ideias de como trabalhar com as comunidades ind\u00edgenas e de como esse acervo deve estar. Tem muito acervo que est\u00e1, de fato, escondido, engavetado. Mas \u00e9 preciso construir isso com as comunidades ind\u00edgenas. O que as comunidades ind\u00edgenas t\u00eam a dizer sobre isso? Essa escuta sempre \u00e9 fundamental para pensar o que fazer, tal como um acervo ou uma exposi\u00e7\u00e3o. Precisamos de um grande estudo: qual \u00e9 esse acervo, quem s\u00e3o os donos, onde eles est\u00e3o?<\/p>\n<p>E a gente sabe que existe muita viol\u00eancia por tr\u00e1s disso, tanto do contexto hist\u00f3rico quanto acad\u00eamico. Este \u00e9 um assunto super delicado, mas \u00e9 um assunto que j\u00e1 est\u00e1 sendo conversado hoje entre institui\u00e7\u00f5es e comunidades ind\u00edgenas. Precisamos discutir como fortalecer essas institui\u00e7\u00f5es, esses acervos e as comunidades atrav\u00e9s desse espa\u00e7o. Acho que a gente tem muito a aprender junto em rela\u00e7\u00e3o a isso. Acho que a sa\u00edda, muitas vezes, \u00e9 a exposi\u00e7\u00e3o, mas com essa exposi\u00e7\u00e3o ou curadoria feita de forma participativa.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil: <\/strong>Recentemente, tivemos a repatria\u00e7\u00e3o do manto tupinamb\u00e1 ao Brasil. E h\u00e1 uma discuss\u00e3o recente sobre outras repatria\u00e7\u00f5es desse patrim\u00f4nio ind\u00edgena. Qual sua vis\u00e3o sobre esse movimento de repatria\u00e7\u00e3o de artefatos ind\u00edgenas?<\/p>\n<p><strong>Francy: <\/strong>S\u00e3o muitos olhares e muitos entendimentos. Acho que cada territ\u00f3rio tem um jeito muito espec\u00edfico de entender aquele objeto. Tem uns [artefatos] que, de fato, precisam estar no territ\u00f3rio para um fortalecimento territorial, ent\u00e3o o patrim\u00f4nio precisa estar de volta para que d\u00ea outro sentido ao territ\u00f3rio. Dentro do nosso territ\u00f3rio (Baniwa) temos bastante cestarias. Mas no nosso territ\u00f3rio, nossos objetos est\u00e3o em constante trabalho, s\u00e3o vivos. Ent\u00e3o, tudo que existe no acervo hoje, para a gente n\u00e3o teria o mesmo cabimento de retornar para a comunidade. Seria melhor ficar naquele lugar do que retornar para as comunidades. Ent\u00e3o, para os Baniwas, h\u00e1 um outro sentido essa repatria\u00e7\u00e3o. Mas em algumas comunidades, o objeto precisa, de fato, estar em casa. S\u00e3o muitos olhares, muitos entendimentos. Ent\u00e3o, para cada povo isso vai ter um significado diferente. S\u00e3o olhares e entendimentos muito diversos.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil: <\/strong>Muitos museus t\u00eam se dedicado recentemente a fazer exposi\u00e7\u00f5es ou rediscutir seus acervos ind\u00edgenas. At\u00e9 mesmo a curadoria v\u00eam passando a ser feita por pessoas ind\u00edgenas. Voc\u00ea acha que, de fato, os museus est\u00e3o se descolonizando?<\/p>\n<p><strong>Francy: <\/strong>Acho que essa curadoria ind\u00edgena dentro dos museus tem feito uma imensa diferen\u00e7a. Acho que a gente, como ind\u00edgena, traz um olhar muito diferente sobre o que \u00e9 uma exposi\u00e7\u00e3o, sobre o que \u00e9 uma curadoria, sobre o que gostar\u00edamos de mostrar para o p\u00fablico. Quando voc\u00ea faz uma exposi\u00e7\u00e3o, existe uma narrativa cosmol\u00f3gica por tr\u00e1s, existe uma viv\u00eancia atual nessas exposi\u00e7\u00f5es, existe o territ\u00f3rio presente nessas exposi\u00e7\u00f5es. Mas o que essas exposi\u00e7\u00f5es, fotografias, desenhos e obras significam para os povos ind\u00edgenas? N\u00e3o \u00e9 apenas uma floresta. Isso \u00e9 um caminho, uma narrativa, uma aula, um ensinamento da import\u00e2ncia sobre os territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>Fizemos recentemente a exposi\u00e7\u00e3o Viva Viva Escolas Vivas no Instituto Tomie Ohtake. A gente sempre parte das narrativas. O nosso mundo, que \u00e9 a oralidade, a gente est\u00e1 transformando em imagens e em cores, dando vida aos nossos deuses para uma forma vis\u00edvel e para que voc\u00eas possam entender o que \u00e9 o nosso mundo. Nossas narrativas t\u00eam vida e s\u00e3o dessas cores. A gente transforma essa oralidade em uma imagem para dizer: \u2018essas s\u00e3o as nossas viv\u00eancias, esse \u00e9 o nosso mundo ind\u00edgena\u2019.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando a gente traz uma exposi\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, n\u00e3o \u00e9 apenas um artista, \u00e9 a comunidade, \u00e9 o coletivo, s\u00e3o v\u00e1rias m\u00e3os que pintaram um quadro. Al\u00e9m de uma imagem ou de um desenho, a gente traz povos, traz territ\u00f3rios, traz a oralidade, traz conhecimento, traz presen\u00e7a, traz for\u00e7a. Al\u00e9m de tudo isso, mostramos que sem o territ\u00f3rio a gente n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Acho que essas curadorias, essas exposi\u00e7\u00f5es mostram que o nosso mundo precisa ser diverso. O nosso mundo \u00e9 feito por muitas l\u00ednguas ind\u00edgenas, com v\u00e1rias origens do mundo, com v\u00e1rios umbigos do mundo, porque os territ\u00f3rios s\u00e3o diversos. N\u00f3s, povos ind\u00edgenas, somos diversos, ent\u00e3o a gente precisa ser respeitado por essa diversidade que existe no Brasil e no mundo.<br \/>\u00a0<\/p>\n<p><strong><em>*Colaborou Thiago Padovan, rep\u00f3rter da TV Brasil<\/em><\/strong><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por MRNews Francineia Bitencourt Fontes \u00e9 uma mulher de muitos primeiros. 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